quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Tratamento Conservador das Lesões SLAP - Vale a pena tentar?

As lesões SLAP são lesões da parte superior do labrum (lábio) da cavidade glenóide. Estas lesões são mais comuns em esportes de arremesso e esportes em que se usa a mão acima da cabeça, como o tenis (serviço, smash). O tipo mais comum de lesão SLAP é o tipo II, no qual ocorre o destacamento do labrum no ponto em que nele se insere o cabo longo do bíceps.


Anatomia. SLAP tipo II.

                Duas causas bem estudadas destas lesões são a contratura da cápsula glenoumeral em sua porção póstero-inferior e a discinesia de escápula. A contratura da porção pôster-inferior da cápsula glenoumeral leva a um deslocamento supero-posterior do centro de rotação da cabeça do úmero na glenoide em situações em que o braço está abduzido e rodado externamente (arremessos). Este deslocamento do ponto de rotação da cabeça do úmero pode levar à tração e cisalhamento do cabo longo do bíceps e labrum superior.

Contratura da cápsula póstero-inferior da glenóide e consequente mudança do ponto de rotação da cabeça do úmero na glenóide.


                A discinesia de escápula também leva ao estresse local uma vez que a escápula mal posicionada, numa posição relativamente protraída, durante o arremesso resulta em maior angulação entre escápula e úmero.

Influência da cintura escapular na biomecânica do arremesso. A- bom posicionamento da escápula. B- escápula protraída com hiperangulação do úmero.
                
Grande parte dos estudos sugere que o tratamento conservador apresenta mal resultado para as lesões SLAP. Em contraste com estes estudos, a prática clínica nos surpreende com uma alta taxa de melhora sem cirurgias. Atribuo isto a dois fatores principais:
1-      A maioria dos estudos que apresentam resultados insatisfatórios com tratamento conservador foi realizado em pitchers (arremessadores do baseball). Pitcher expões seus ombros à cargas extremas de forma repetitiva. Qualquer lesão de ombro, por menor que seja, pode ser sintomática e de difícil recuperação nesses atletas. No Brasil, entretanto, a maior parte das lesões SLAP ocorre em atletas de outros esportes, em que a carga local é sensivelmente menor que nos pitchers.

2-      Grande parte dos estudos focam a reabilitação na região glenoumeral e/ou cintura escapular. Isto ocorre devido à padronização muitas vezes necessária em estudos. Outros pontos da cadeia cinética do gesto esportivo, entretanto, podem estar comprometidas. Um controle pobre do tronco, ativação neuromuscular inadequada de membros inferiores ou déficits de rotação interna de quadril, por exemplo, podem prejudicar a transmissão de forças até o ombro, levando à compensações nesta articulação. Em determinadas situações a reabilitação terá melhor resultado somente com estas questões corrigidas.


Lesões SLAP são lesões relativamente comuns em atletas e, em muitos casos, podem responder bem à reabilitação. Quando a reabilitação não trouxer bons resultados, o tratamento cirúrgico pode ser indicado.


domingo, julho 14, 2013

Curso de Emergências em Medicina do Esporte






                                              Data: 17 e 18 de Agosto - 2013
                                              Local: Universidade Gama Filho, São Paulo.
                                              Rua Treze de Maio 681 – Bela Vista
Inscrições e Informações:



VAGAS LIMITADAS!








domingo, maio 12, 2013

Análise por Vídeo de Lesões do Joelho

Este post mostra os vídeos de duas lesões que ocorreram nos playoffs da NBA no ano de 2012. A análise de vídeo ajuda a entender o mecanismo de lesão das rupturas do LCA (ligamento cruzado anterior). O primeiro vídeo é de uma lesão de LCA, LCM (ligamento colateral medial) e menisco medial. Neste vídeo podemos perceber diversos fatores relacionados com a lesão: (1) leve contato com adversário, (2) inclinação do tronco com desvio do centro de massa lateralmente ao joelho do membro de apoio, (3) pé de apoio distante do centro de massa, (4) contato inicial com calcanhar.




O próximo vídeo mostra também fatores de risco para lesão de LCA, a lesão em questão.







O entendimento dos mecanismos que causam as lesões é importante pois permite o desenvolvimento de programas de prevenção. Há exemplos de programas de prevenção simples e baratos, baseados nos mecanismos de lesão, que diminuem o risco de lesão do LCA em cerca de 50%. Cabe aos profissionais da saúde e do esporte aplicá-los!

quarta-feira, abril 17, 2013

Radiografia no Estudo do Impacto Femoroacetabular

Olá Amigos do SMB!


Um dos grandes desafios na medicina do esporte são as dores da região inguinal e quadril. Dentre as diferentes causas possíveis para esta queixa está o impacto femoroacetabular (FAI). Este ocorre quando há compressão entre o acetábulo e colo do fêmur, o que pode levar à lesão de estruturas locais, como o labrum acetabular que está interposto.
O impacto pode ser tipo Pincer (componente acetabular), Came (componente femural) ou Misto.



O diagnóstico é clínico, com utilização de exames de imagem para comprovação. É importante ao exame, avaliar se a dor desencadeada pelos testes para FAI apresenta as características da queixa clínica, pois há diversas outras causas de dor nesta região que devem ser contempladas.
O exame de imagem mais acessível para a investigação de FAI é a radiografia, e dependendo do cenário pode ser o único disponível. O objetivo deste post é apresentar alguns dos principais achados radiográficos do FAI de forma prática.
A Radiografia AP da Bacia com raio focado na sínfise púbica e MMII em rotação interna é amplamente utilizada, pode trazer muitas informações acerca do FAI. A esta imagem pode-se associar AP de quadril, perfil, Dunn, cross-table, entre outros estudos radiográficos.




Transição normal entre cabeça e colo do fêmur.





                   
Deformidade tipo came em pistol grip (cabo de pistola)




Transição cabeça-colo na incidência cross-table, menos de 10mm é indicativo de FAI tipo came.



Cobertura normal. Linha passando pelo bordo lateral do acetábulo forma ângulo entre 25° e 39° com linha vertical, ambas linhas passando pelo centro da cabeça do fêmur. Abaixo de 25°, displasia. Acima de 39° supercobertura, possível impacto.




No quadril normal a fossa acetabular encontra-se lateral à linha ilioisquiática (foto da esquerda). A direita, coxa profunda, fossa acetabular ultrapassa a linha ilioisquiática.



A esquerda relação normal entre parede anterior (medial, setas brancas) e posterior do acetábulo. Na imagem da direita, sinal do crossover de retroversão acetabular –cruzamento da parede anterior lateral à posterior na porção cranial.

A avaliação da radiografia de quadril em casos de suspeita de FAI pode ser muito útil na elucidação diagnóstica. É importante que o médico do esporte sistematize esta avaliação na busca destas alterações e interpreta os achados de acordo com a clínica de cada paciente.

sexta-feira, abril 12, 2013

Dividir para Conquistar?


                Caro leitor, este post é um pouco diferente dos que você está acostumado a ler no blog. Nele não discutiremos lesões ou reabilitação no esporte, não abordaremos temas de nutrição esportiva, não discutiremos fisiologia do exercício. Apesar disso, talvez este seja o texto que melhor representa a medicina do esporte entre todos que publicamos até hoje em nosso blog.
                O objetivo deste post é chamar a atenção para a necessidade para uma medicina que entenda o paciente como uma pessoa, não como um coração, um joelho ou qualquer outro pedaço de alguma coisa. Uma pessoa é a complexidade de corpo, mente, espírito, estilo de vida, ações, pensamentos, angústias, relacionamentos... Realmente impossível compreendermos esse todo, mas devemos tentar chegar o mais próximo possível. Acredito que seja esta a melhor forma de ajudarmos nossos pacientes, as pessoas que nos procuram em momentos de dificuldade.
                Certamente é muito mais fácil apelar para o Cartesianismo, dividir e especializar. Muitas vezes os resultados imediatos podem ser substancialmente mais satisfatórios quando fechamos os olhos para o todo. Uma infiltração com corticoesteróides em um tendão doente o fará ser o melhor médico do mundo para o paciente que teve a dor “tirada com a mão”. Já uma recuperação bem planejada que objetive recuperar a estrutura lesionada e corrigir fatores desencadeantes (aqui vale lembrar: corpo, mente, espírito), pode demorar certo tempo para trazer resultados - isso se você conseguir que seu paciente entenda e se comprometa com o plano de trabalho. Além disso, mesmo com o comprometimento total ao tratamento, os resultados não são tão previsíveis quanto os da infiltração com corticoide ou do uso prolongado de anti-inflamatórios.

A medicina vive um momento Frankenstein, mostrando dificuldades em entender o todo.


Mas então, por que insistir nesta abordagem? Ela é demorada, trabalhosa e certamente menos custo-efetiva (em termos de dinheiro, remuneração por hora de trabalho).

Devemos insistir por acreditar estar fazendo o melhor para nossos pacientes.


                Algumas vezes, de fato, avaliações e tratamentos específicos são muito bem-vindas. Uma avaliação com cirurgião de pé e tornozelo me parece muito bem indicada no caso de uma instabilidade crônica de tornozelo que não responde a uma boa reabilitação. A própria infiltração com corticoesteródes pode ter seu espaço em casos selecionados. Esta, entretanto, não deve ser a principal forma de prover saúde, mas sim ser usada para problemas pontuais.

Exceto para o caso de você ser o médico da família Addams, é importante que entenda seu paciente como um todo.

                Acredito que para desenvolvermos uma medicina que contemple o ser humano como um todo tenhamos que voltar a nossas raízes, reaprender com o médico de tempos remotos, o médico da família. Vejo alguns esboços deste retorno à busca do todo na medicina e fico feliz de que a medicina do esporte, na última década, seja um grande exemplo desta busca. Conheço muitos colegas que mantém esta visão apesar dos conselhos dos mais experientes (e bem sucedidos) colegas sobre a necessidade de se subespecializar. Ao invés disto buscamos ampliar mais a visão, nos relacionando e trocando experiências com colegas de outras especialidades, educadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas. Continuamos nadando contra a correnteza.



Fábula dos homens cegos e o elefante. Nenhum deles realmente percebe o animal.

Para finalizar, deixo este link do Departamento de Medicina de Família da Universidade de Wisconsin:

É a página de Medicina Integrativa. Sim, algo com muito espaço para picaretagem (mas não acontece o mesmo na medicina do esporte, com todos estes prescritores de anabolizantes usando o nome de nossa especialidade?), mas com muitas pessoas sérias também.

segunda-feira, abril 08, 2013

Avaliação em Campo


            O atendimento em campo vai muito além de jogar um "spray mágico" ou "água benta" como muitas pessoas pensam. Logicamente, que o atendimento proposto a seguir pode servir para muitos locais como quadras, pistas, ruas, piscinas, ... A avaliação deve respeitar os preceitos básicos do atendimento de primeiros socorros.
            Usamos o famoso ABCDE:
A (airway) - vias aéreas
B (breathing) - respiração
C (circulation) - circulação/sangramento
D (disability) - avaliação neurológica
E (evaluation/extremity) - exposição e avaliação de extremidades
            A maior parte das lesões esportivas não apresentam risco de vida para os atletas. Por isso, vemos poucos atendimentos com avaliação do ABC. Nessa primeira parte é importante ter treinamento em BLS (basic life suport) e PHTLS (pre hospital trauma life suport). Pontos cruciais são identificação de uma possível parada ou lesão mais grave e conduzir o caso de maneira correta.
            Avaliação neurológica passa desde descartar os sintomas de concussão que são listados na ferramenta de avaliação SCAT 2. Uma vez confirmada ou descartada concussão deve-se checar sensibilidade distal, função motora e pulsos periféricos.
            Sempre que houver evidência de fratura ou luxação deve-se checar sensibilidade e pulso antes e depois da imobilização também. Além disso, deve-se evitar redução de articulações luxadas ou com fratura em campo, ainda mais por leigos.
            Em relação a decisão de continuar ou não, os atletas devem ser afastados do jogo se:
1. sofrerem concussão ou tiverem suspeita,
2. tiverem lesão articular que afetam significativamente a amplitude de movimento,
3. tiverem crepitação óbvia, deformidade focal dolorosa, indicação de fratura de ossos longos,
4. tiverem instabilidade articular significativa,
5. não conseguirem suportar o próprio peso,
6. não desejarem continuar,
7. não conseguirem desempenhar funções básicas do seu esporte ou posição,
            É importante lembrar que alguns esportes não permitem que atletas continuem jogando enquanto estiverem com sangramento ativo. Outros não permitem atletas alcolizados. Em alguns casos existe limite de atendimento médico ou até mesmo desclassificação quando a mesma ocorre. Portanto, é importante conhecer as regras específicas da cada esporte.

link para acesso do SCAT 2 em inglês: http://www.cces.ca/files/pdfs/SCAT2[1].pdf

quarta-feira, abril 03, 2013

ECG do Atleta.


  Caros amigos do SMB, este post é uma sugestão de leitura do artigo Electrocardiographic Findings Suggestive of Cardiomyopathy: What to Look for and What to Do Next”, publicado em março de 2013 no periódico Current Sports Medicine Reports. É uma interessante revisão sobre coração de atleta e as mais importantes causas de morte súbita no esporte.

      Os exemplos de ECGs são muito educativos, vale uma breve visão preliminar:



Achados comuns em atletas: bradicardia, repolarização precoce (setas) e critério de voltagem para sobrecarga de VE. Não indicam investigação adicional.



 

Variante normal de repolarização em atleta de origem africana: ST em cúpula seguido por inversão de onda T (V1-V4). Há também distúrbio de condução pelo ramo direito (seta verde) e critério de voltagem para sobrecarga de VE. Este padrão comumente desaparece durante o teste de esforço. Importante salientar que esta variação não costuma ocorrer além de V4, o que demandaria investigação adicional.



Cardiomiopatia Hipertrófica. Onda T invertida profunda estendendo-se para derivações laterais (I, aVL, V5, V6).

 



Cardiomiopatia Hipertrófica. Onda T invertida em derivações laterais, depressão de ST V4-V5.

 



Displasia Arritmogênica de VD. Onda T invertida V1-V4, onda Epsilon (seta).




Cardiomiopatia não-compactada (VE). Depressão de ST em derivações inferolaterais.

 


     Vale a leitura do artigo! Veja também os seguintes artigos sobre achados normais e anormais no ECG de atletas!

        http://bjsm.bmj.com/content/47/3/125.full

        http://bjsm.bmj.com/content/47/3/137.full


Abraços!

quarta-feira, março 27, 2013

Disfunção Sacroilíaca e Lombalgia

Olá amigos do Sports Medicine Brasil, este post tem como objetivo chamar a atenção dos colegas que atuam na medicina do esporte e ortopedia para o diagnóstico diferencial de disfunção sacroilíaca em casos de lombalgia.
O vídeo a seguir comenta como tratamentos equivocados podem levar a resultados insatisfatórios quando o diagnóstico correto não é feito. Vale a pena conferir!




Abraços e boa Páscoa a todos!

quarta-feira, junho 20, 2012

Team Physician Part I - ACSM


         Boa noite amigos do blog, dentre de algumas semanas iremos reformular nosso blog, a idéia é poder divulgar um conteúdo mais didático e de fácil entendimento para os profissionais de saúde e até leigos. Ainda manteremos alguns artigos científicos, principalmente, com novidades da nossa especialidade.
         Voltando ao assunto inicial, irei falar sobre um curso para médicos, principalmente, aqueles que atuam em clubes esportivos. O foco do Team Physician Course é discutir os assuntos comuns ao cotidiano do médico de equipe, na parte 1 serão abordados assuntos como concussão e lesões cervicais, lesões de membros superiores, psicologia e a mulher atleta.
         O curso é vinculado ao American College of Sports Medicine e visa uma abordagem generalista, mostrando que o conhecimento do médico do esporte deve ir além da traumatologia e cardiologia.
         Nos Estados Unidos, o curso é dividido em parte 1, parte 2 e curso avançado, cada um com suas particularidades. Aqui no Brasil deve seguir o mesmo modelo.
         A realização de cursos e congressos com palestrantes internacionais ligados a entidades esportivas e sociedades médicas do mundo todo deve crescer até a realização da Copa de Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos. Portanto, para os profissionais da área essa é a hora de aproveitar e participar desses eventos.  

terça-feira, maio 22, 2012

A medicina do esporte no mês de maio

Olá colegas do Sport Medicine Brasil,
O mês de maio foi muito bom para a medicina do esporte no país, tivemos o congresso brasileiro e sul-americano da especialidade e a prova de título de especialista (aproveito para parabenizar todos os aprovados!).
O congresso, que aconteceu em Porto Alegre, foi muito bom. Como sempre uma ótima oportunidade para trocar experiencias com os colegas e para rever os amigos. Além disso, uma novidade que me chamou atenção positivamente no congresso deste ano foram os colóquios e o fogo cruzado de algumas mesas de discussão. Esse formato, até então pouco usado nos congressos da medicina do esporte, me parece muito interessante, pois colegas renomados com experiência na medicina do esporte discutindo pontos de vista discordantes se torna muito proveitoso.
Nestes colóquios a participação da platéia também foi marcante, mostrando que a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte acertou em cheio nas atividades. A discussão sobre treinamento em zona de isquemia durante a reabilitação cardíaca, por exemplo, foi intensa e os convidados defenderam seus pontos de vista com base em evidências científicas. Estas atividades ajudam a abrir o leque de discussões e, além de esclarecimentos, fazem emergir dúvidas e isto é muito bom - nada melhor para uma mente curiosa do que dúvidas.
Espero que todos os colegas tenham aproveitado o congresso, nos vemos novamente no Team Physician Course em junho!

sexta-feira, março 30, 2012

Reuniões Científicas da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e do Exercício (SBMEE)


            Boa noite leitores do blog, nesta última terça dia 27 de março foi realizada a primeira reunião científica da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e do Exercício do ano de 2012.
            São reuniões mensais que abordam diversos temas sobre medicina e também sobre o esporte, sempre com convidados ilustres como foi o caso do ex-atleta olímpico e atual dirigente Lars Grael, geralmente realizadas na última terça do mês.
            O local é o anfiteatro do Hospital 9 de Julho. Para mais informações sobre os temas da reunião podem ser acessados os sites da SBMEE ou do Hospital 9 de Julho. Além disso, as reuniões contam pontos para CNA.

terça-feira, março 27, 2012

Protocolos de obtenção do VO2max e novas evidências para a Teoria do Governo Central de Fadiga.

Olá leitores do blog, inicio minha colaboração falando sobre um editorial do British Journal of Sports Medicinede janeiro deste ano que chama a atenção para o artigo "Conventional testing methods produce submaximal values of maximum oxygen consumption" publicado no mesmo fascículo e aproveita para discutir a importância deste e de outros recentes artigos para a Teoria do Governo Central de Fadiga.

No trabalho citado foi testada a hipótese de que o platô de consumo de oxigênio em um protocolo incremental poderia não representar o consumo máximo de oxigênio e ser apenas um fenômeno inconstante que poderia ocorrer inclusive no exercício submáximo.

Para isso desenvolveram um protocolo reverso decremental, definido em função de um teste incremental convencional, devido à hipótese de que caso haja algum mecanismo biológico central que leve a cessação antecipatória do esforço, esse poderia ser atenuado se o sujeito tivesse a noção de que o teste ficaria progressivamente mais fácil à medida que se prolongasse.

26 sujeitos participaram e cada um executou um total de 5 testes. Os 2 testes iniciais foram incrementais para familiarização e para obtenção do VO2max, respectivamente com estágio inicial de 9km/h e aumento de 1km/h/min. Utilizou-se ainda de um teste de verificação supra-máximo 15 minutos após estes 2 primeiros testes, para avaliar o surgimento do platô de oxigênio. A partir daí os sujeitos foram randomizados em 2 grupos. O grupo controle executaria mais 3 testes incrementais e o grupo reverso realizou 2 testes decrementais e encerrou com um último teste incremental.


Para o protocolo decremental utilizou-se como estágio inicial uma velocidade 1km/h superior a do último estágio alcançado no teste incremental, com duração de 1 minuto. Em seguida a velocidade foi reduzida 1km/h e mantida por 30s. Após isso foram feitas reduções de 0,5 km/h que foram mantidas por 30, 45, 60, 90 e 120 s, respectivamente.

Não houve diferença significativa no VO2max entre os grupos controle e do protocolo reverso. Também não houve diferença significativa entre o VO2max dos 5 testes para o grupo incremental. Já no grupo do protocolo reverso, houve um aumento significativo de 4,4% durante o protocolo reverso, que curiosamente e de maneira inesperada, se manteve durante o teste incremental final, apesar de não haver diferenças na performance. Vale ressaltar que este aumento ocorreu inclusive em sujeitos que haviam previamente feito platô de consumo de O2 no protocolo incremental e no teste de verificação supra-máximo, fortalecendo a hipótese de que este não necessariamente significa consumo máximo.

Finalizo recomendando também a leitura do artigo “A new VO2max protocol allowing self-pacing in maximal incremental exercise” que utilizou um protocolo auto-regulado em cicloergômetro com 5 estágios progressivos de 2 minutos cada, com a percepção de esforço fixada para cada estágio em Borg 11, 13, 15, 17 e 20. Desta maneira, cabia ao sujeito determinar o ritmo baseado na sua percepção. Foram obtidos resultados superiores ao do teste incremental convencional.

Tais achados vêm para corroborar com a teoria de que existem mecanismos centrais ainda não claramente conhecidos que provavelmente se manifestam de maneira antecipatória. Com certeza ainda vamos ouvir falar bastante a respeito com os trabalhos que estão por vir.


João Antônio Jr, médico do esporte pela USP

quinta-feira, março 01, 2012

Comparação entre água de côco, bebida isotônica esportiva e água


            Boa noite leitores do blog, esta noite falaremos a respeito de hidratação e exercício físico. O artigo escolhido do Journal of the International Society of Sports Nutrition de janeiro de 2012 foi escrito por Kalman e colaboradores.
            O objetivo do estudo foi comparar 4 tipos de bebidas: água de côco concentrada, água de côco pura, bebida isotônica esportiva e água em relação a hidratação e performance de pessoas fisicamente ativas.
            O estudo realizou quarto testes em dias diferentes em sequência aleatória e realizava um protocolo de desidratação de 2% do peso corporal, em ambiente e condições controladas. Em seguida, os sujeitos realizaram reidratação durante 1 hora com cada uma das bebidas, após 2 horas de descanso iniciava o teste até a exaustão com protocolo de velocidade constante e incremento de inclinação a cada 3 minutos. Os participantes deveriam estar fisicamente ativos por pelo menos 6 meses e foram selecionados através do PAR-Q.
            Quanto aos resultados, o estudo não demonstrou diferença em relação a hidratação entre as bebidas utilizadas. Esses dados já tinham sido previamente detectados em estudos anteriores comparando bebida esportiva, água de côco e água. Além disso, o tempo até exaustão também não apresentou diferença significativamente entre os diferentes grupos.
            Algumas críticas foram relatadas pelo próprio grupo como o protocolo escolhido talvez não ser o mais indicado, além disso, o estudo foi patrocinado por uma empresa que embala água de côco. Mais estudos são necessários para concluir o uso de água de côco como repositor hídrico durante o exercício, principalmente, no que se refere a tolerância gástrica e performance.


Imagem extraída do site http://www.liferun.com.br/ no dia 01/03/12

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Efeitos em longo prazo do exercício excêntrico na tendinopatia de Aquiles

Olá amigos do Sports Medicine Brasil, o post dessa semana é sobre um assunto muito prevalente em medicina do esporte: tendinopatia da porção média do tendão de Aquiles. O volume de março do British Journal of sports Medicine traz um follow-up de 5 anos de pacientes com esta doença.

O estudo mostra os resultados de seguimento 5 anos após protocolo de três meses de exercícios excêntricos (protocolo de Alfredson). Nos 46 pacientes (58 tendões) analisados o escore VISA-A teve uma melhora significativa de 49.2 para 83.6, sendo que 39.7% dos pacientes apresentavam-se completamente sem dor. A satisfação subjetiva obteve 50% de “bons” ou “excelentes”.



Após os três meses de protocolo excêntrico 48% dos pacientes se sujeitou a terapias alternativas (ex: massagens, terapia de onda de choque, cirurgia, acupuntura, imobilização, anti-inflamatórios, etc), sendo que 21,4% destes estavam livre de dor no follow-up de 5 anos. O grupo que não buscou terapias alternativas apresentou 56,7% de assintomáticos após os 5 anos.

Embora dor leve possa permanecer em alguns casos, os resultados deste seguimento em longo prazo sobre os efeitos de três meses de exercício excêntrico na tendinopatia crônica de Aquiles mostram melhora persistente e progressiva após 5 anos. Possivelmente a manutenção sistemática dos exercícios durante alguns dias por semana possa desempenhar um importante papel no tratamento de sintomas residuais e prevenção de recorrências.


Pontos – Chave:


  • A tendinopatia da porção média do Aquiles é muito prevalente nos esportes.

  • O protocolo de exercícos excêntricos de Alfredson é o tratamento de primeira linha.

  • Os efeitos benéficos deste protocolo mantém-se mesmo após 5 anos de seu término.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Aprendizado Motor e a Prevenção de Lesão de Ligamento Cruzado Anterior


            Boa noite leitores do blog, nesse post falaremos sobre aprendizado motor e prevenção de lesão de ligamento cruzado anterior (LCA). Artigo publicado em novembro de 2010 no jornal Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy por Anne Benjaminse e Egbert Otten.
             O aprendizado de técnicas de aterrissagem mostrou ser extremamente efetivo e fácil de ser assimilado, diminuindo imediatamente reação de forças com o solo. No entanto, a retenção da técnica é pequena quando o seguimento ultrapassa 1 semana. Uma das questões levantadas era a idade adequada para se iniciar o programa de prevenção, do ponto de vista de aprendizado crianças de 6 a 12 anos deveriam aprimorar sua técnica e alinhamento tornando o movimento automatizado posteriormente. No entanto, crianças apresentam pouco risco para lesões mais sérias, sendo que o risco aumentaria em crianças de 12 a 14 anos de idade.
            Outro método que auxiliaria é o aprendizado através de imagens e videos, a transmissão de informações para os atletas pode aumentar o poder de reprodução de certos movimentos. Sendo que o aprendizado é maior em atletas já proficientes e a observação de atletas do mesmo sexo também afeta a ativação neuronal.
            Estudos de prevenção apontaram exercícios que previnem lesões através do aumento de força e condicionamento. Através destas investigações foi possível concluir que lesões de LCA podem ser prevenidas através da combinação de exercícios de equilíbrio, coordenação, força, pliométricos e de agilidade. O uso de cameras de video pode auxiliar na melhora da técnica dos atletas.
            O maior desafio hoje é realizar a transição do aprendizado consciente em automatização de movimentos. A realização de trabalhos individualizados parecem ser a melhor estratégia para o aprendizado de técnicas de salto e aterrissagem. 


Imagem extraída do site: http://www.saudebeleza.org/saude-crianca/criancas-atividades-fisicas-pratica-esportes/ no dia 16/02/12

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Aplicação do Programa de Prevenção no Futebol


Boa noite leitores do blog, retornando ao assunto de prevenção de lesões no futebol, nós falaremos sobre os resultados da aplicação do programa “11+” da FIFA.
O artigo publicado em outubro de 2010 pelo grupo do doutor Junge A. no American Journal of Sports Medicine, mostra um estudo populacional entre jogadores de futebol amador que treinam em média 90 minutos, 2 vezes por semana e tem 1 jogo por semana.
Inicialmente, foram constatados que a maioria das lesões ocorriam durante os jogos (72%) e afetavam as extremidades inferiores (85%). Dentre as lesões mais comuns estavam distensão da coxa e entorse de tornozelo.
Depois, foram separados em grupos os técnicos que adotaram as práticas do 11+  e aqueles que não adotaram o aquecimento. Quando comparados os 2 grupos ocorreu diminuição de 25% de lesões nos treinos e 12% de diminuição durante os jogos.
Obviamente que o estudo apresenta fraquezas, dentre elas, o fato dos técnicos escolherem se implementavam ou não o programa 11+, poderia interferir de maneira importante, principalmente, nas características do treino.
Apesar disso, estudos de prevenção de lesões isoladas como entorse de tornozelo, demonstravam bons resultados, o que poderia sustentar os resultados demonstrados. 


Imagens extraídas do site: http://www.jssm.org/vol7/n3/2/F2.htm, no dia 09/02/12

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Prevenção de Lesões no Futebol


            Boa tarde leitores do blog, essa semana falaremos sobre prevenção de lesões no futebol. O futebol, tem evoluído constantemente desde a sua criação, tanto na parte tática e técnica, como no emprego de novas tecnologias para treinamento e rendimento dos atletas.            
A melhora dos treinos e condicionamento dos jogadores levou ao aumento da velocidade do jogo, tornando suas exigências físicas cada vez maiores. Todo esse cenário caminhou para a formação de equipes multiprofissionais que integram uma comissão técnica.
No caso do departamento médico, um dos maiores desafios é a prevenção de lesões apesar de todo estresse físico sofrido por atletas. Pensando nisso, a FIFA, através da F-Marc criou um protocolo de aquecimento, no qual, atletas devem realizar exercícios de fortalecimento muscular, treinamento de CORE, treino de propriocepção, exercícios excêntricos e correção de biomecânica.
Esse programa de treinos foi batizado de 11+, pode ser acessado por qualquer pessoa através do site: http://f-marc.com/11plus/downloads/ . Recomenda-se que estes exercícios sejam realizados em atletas com mais de 14 anos de idade no início de todas as sessões de treino em campo.
Uma boa iniciativa para prevenção de lesões com um programa prática, podendo ser realizado no próprio local, sem necessidade de equipamentos caros, ou seja, acessível a todos os níveis. Mais pra frente discutiremos alguns resultados desse programa. 


Imagem extraída do site: http://pt.fifa.com/aboutfifa/footballdevelopment/medical/aboutus/excellencecentres/index.html no dia 06/02/2012.